Emoções e desenvolvimento

Criança que não sabe perder: 7 jeitos de ensinar a lidar com a derrota

Publicado pela equipe eKarts · Leitura de 8 minutos

Pai sentado no chão da sala conversando com o filho de braços cruzados, depois de uma partida de jogo de tabuleiro

A cena é conhecida. O jogo estava ótimo, todo mundo rindo, até o momento em que ficou claro quem ia ganhar. Aí vem o choro, ou a peça voando pela sala, ou aquele "não quero mais jogar" dito de costas, braço cruzado, no meio da partida. E junto vem o aperto de quem está olhando: será que estou criando uma criança que não aguenta perder?

Pode ficar tranquilo, quase toda criança passa por isso. Perder bem é uma habilidade, e habilidade se aprende, do mesmo jeito que esperar a vez ou emprestar o brinquedo favorito. Ninguém nasce sabendo. E dá para ajudar bastante, em cada idade de um jeito, inclusive no exato momento em que a peça voa.

Por que perder dói tanto, e por que a idade muda tudo

Antes de ler a reação como falta de educação, ajuda olhar o que está acontecendo por dentro. A frustração que a criança sente é real, forte como a de um adulto, só que num cérebro que ainda não tem as ferramentas de um adulto para segurar a onda. A parte que planeja, espera e acalma é justamente a que amadurece mais devagar, ao longo de toda a infância e boa parte da adolescência.

Dos 3 aos 5 anos, perder mal é o esperado. A criança dessa idade ainda mistura o resultado com quem ela é: perder soa menos como "perdi essa partida" e mais como "eu sou pior". Muitas nem seguem as regras direito, e é muito comum ver a criança mudar a regra no meio do jogo para poder ganhar (quem nunca ouviu um "agora pode pular duas casas"?). Isso faz parte do desenvolvimento normal e está bem longe de ser trapaça no sentido adulto.

Dos 6 aos 8, a comparação com os outros entra com tudo. É quando a criança começa a reparar em quem corre mais rápido, quem lê melhor, quem foi escolhido primeiro para o time. Perder ganha plateia, e a vergonha entra na conta junto com a frustração.

Dos 9 aos 11, já dá para conversar sobre estratégia, sobre treino e sobre o que deu errado na partida. A criança consegue entender que uma derrota ensina alguma coisa, desde que ninguém aproveite o momento para dar sermão.

Então, se seu filho tem 4 anos e vira o tabuleiro, ele está exatamente onde deveria estar. Se tem 10 e ainda faz isso toda vez, o que falta é treino, e esse treino a gente dá em casa.

Três coisas que costumam piorar (e a gente faz sem perceber)

Deixar ganhar sempre. É tentador. Evita o chororô e parece carinho. Só que a criança fica sem repertório para o dia em que a derrota acontecer longe de casa, na escola ou no jogo com os primos, onde ninguém combinou de perder para ela. Deixar ganhar de vez em quando, principalmente quando ela é bem pequena, é normal. O que atrapalha é ela nunca ter perdido.

Dar o sermão no auge do choro. No pico da frustração, a criança simplesmente não consegue ouvir argumento. Explicar ali que "é só um jogo" e que "o importante é competir" só acrescenta um segundo sentimento ruim, o de estar levando bronca, em cima do primeiro. A conversa boa fica para dez minutos depois, com o corpo já calmo e, de preferência, no colo.

Minimizar o sentimento. "Não foi nada", "que exagero", "olha o tamanho disso". São frases ditas com a melhor das intenções, mas o recado que chega é outro: você está sentindo errado. E aí a criança aprende a esconder a frustração em vez de aprender a lidar com ela.

1. Nomeie o sentimento antes de corrigir o comportamento

A primeira coisa é a mais simples e a menos intuitiva: dizer em voz alta o que está acontecendo, sem julgamento. "Você queria muito ganhar essa. Está com raiva." Só isso, sem "mas" no final. A peça voando a gente resolve daqui a pouco. Primeiro ela precisa sentir que foi entendida.

Funciona por um motivo bem prático: quando a emoção vira palavra, ela deixa de ser só uma tempestade no corpo. A criança que consegue dizer "estou frustrado" ganha mais um caminho para pôr aquilo para fora, além do choro e da peça voando. E criança que se sente compreendida baixa a guarda muito mais rápido do que criança confrontada.

2. Separe o sentimento da regra

Sentir, pode tudo. Fazer, nem tudo. Essa diferença é o coração da coisa, e ajuda muito dizer com todas as letras: "pode ficar bravo, não pode jogar a peça na sua irmã".

E se a peça voar mesmo assim? Melhor combinar isso antes, com calma, do que inventar no calor da hora. Algo pequeno e sempre igual funciona bem: o jogo faz uma pausa, a gente guarda junto e tenta de novo mais tarde, quando todo mundo estiver mais tranquilo. Sem bronca comprida, sem ameaça. O que acalma a criança é saber o que vem depois, e perceber que o adulto continua do lado dela enquanto isso.

3. Combine as regras antes de começar, inclusive a de desistir

Muita briga de fim de jogo nasce de uma regra que ninguém combinou no começo. Antes de a primeira peça andar, ajuda acertar como se ganha, quanto tempo dura e o que acontece se alguém quiser parar no meio.

Essa última é a mais esquecida. Se ficou combinado que quem sai no meio deixa o jogo seguir sem ele, e que pode entrar de novo na próxima rodada, desistir perde aquele poder enorme de parar a brincadeira de todo mundo. Muitas vezes, só isso já faz a vontade de sair diminuir.

4. Elogie o processo, mais que o resultado

Se o elogio aparece quando a criança ganha, o recado que chega é que ganhar é a condição para ser admirada. Repare em voz alta no que não depende do placar: "você pensou bastante antes daquela jogada", "você continuou tentando mesmo lá atrás", "você explicou a regra direitinho para a sua irmã".

E faça isso também, e principalmente, quando ela perde. É ali que o elogio mais ensina, porque mostra que teve coisa boa na partida independentemente de quem ganhou.

5. Deixe seu filho ver você perder

Criança aprende a perder olhando gente grande perder. Se o adulto só joga para vencer rápido, ou sai da mesa quando está atrás, ela recebe o recado mais forte possível: perder é insuportável.

Perca em voz alta, com naturalidade e um pouco de humor: "poxa, perdi essa. Fiquei chateado. Bora de novo?" Em dez segundos a criança vê que adulto também se chateia, que a chateação passa e que o natural é jogar outra vez. Serve para o pai que perde no truco, para a mãe que erra a palavra no jogo de adivinhação e, mais ainda, para os dois quando um perde para o outro na frente das crianças.

6. Use jogos de sorte e jogos cooperativos como treino

Cada tipo de jogo ensina uma coisa, e dá para escolher conforme o dia.

Jogos de sorte pura, como os de dado, são o degrau mais fácil. Perder ali não diz nada sobre a habilidade de ninguém, e isso tira um peso da autoestima. Ótimo começo para os menores.

Jogos cooperativos, em que todo mundo joga junto contra o próprio jogo, treinam torcer em equipe e aguentar o revés sem ter um vencedor de carne e osso para invejar.

Partidas curtas ensinam mais do que uma longa. Em dez minutos de jogo rápido cabem três derrotas e três recomeços, e é no recomeço que a habilidade cresce. Perder uma vez só, depois de duas horas de partida, ensina bem menos (e cansa todo mundo).

7. Crie um ritual de fim de jogo

Um gesto pequeno e sempre igual no fim de cada partida dá à criança um jeito pronto de sair da derrota de cabeça erguida, sem precisar inventar um na hora, sob pressão.

Pode ser um aperto de mão, um "boa partida" dito por todos, ou uma pergunta fixa: qual foi a jogada mais bonita da mesa, mesmo que tenha sido do adversário. O esporte tem o cumprimento no fim do jogo pelo mesmo motivo. E criança pequena adora um ritual, ainda mais um em que ela mesma pode puxar o "boa partida".

E se a reação for grande demais?

Explosões de vez em quando fazem parte. Merece mais atenção quando o padrão muda: a criança passa a evitar qualquer atividade em que possa perder, as crises são longas e frequentes bem depois dos 7 ou 8 anos, aparece agressão física com alguma constância, ou ela fala de si com dureza, do tipo "eu sou burro", "eu não presto para nada".

Nada disso é motivo para pânico, e nenhum texto na internet substitui um olhar profissional. Se você reconhece esse quadro em casa, conversar com o pediatra ou com um psicólogo infantil costuma resolver mais rápido do que tentar decifrar sozinho. Pedir ajuda cedo também é cuidado.

O que a gente está ensinando, no fundo

A ideia nunca foi criar uma criança que não liga para perder. Ligar é bom: é o que faz ela treinar, prestar atenção e voltar melhor. O que a gente quer é que ela aguente a frustração de pé, sem que o mundo desabe junto.

Isso se aprende aos pouquinhos, na mesa de jogo, na quadra, na brincadeira de rua. Cada partida perdida com um adulto calmo por perto é um ensaio seguro para as derrotas que vão chegar sem aviso e sem plateia amiga. Por isso jogar com os filhos numa noite qualquer de terça, mesmo cansado, é das coisas mais úteis que existem.

Aqui na pista a gente vê essa cena toda semana. Quem chegou em segundo desce do kart emburrado, ainda tirando o capacete, vai conferir o tempo da volta e, dois minutos depois, já está perguntando quando pode correr de novo. A habilidade inteira está ali, bem pequenininha: ficar chateado, olhar o que aconteceu e querer tentar outra vez. E ela se treina em qualquer jogo de tabuleiro da sua sala.

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